Pouco antes da Sofia nascer, acho que li um texto que me acompanha até hoje. Ele falava sobre um certo desapego, necessário no cuidado com os filhos, fazendo uma analogia com as plantas: a gente precisa preparar o solo, regar de tempos em tempos, proteger das pragas. Mas não pode ficar ali colado, fazendo sombra, senão a planta não toma sol e não cresce.
Essa imagem esteve muito presente ao longo dos últimos quase quinze anos, voltando à minha memória em momentos em que eu precisava de orientação. Por causa dela, muitas vezes dei um passo para trás para que a pequena pudesse buscar luz sozinha.
Não fazer sombra. Deixar o sol entrar.
Nunca me arrependi de dar esse espaço.
Há algum tempo, procurei esse texto e não encontrei. Revirei minhas pastas, meus e-mails, procurei nos buscadores… nada.
A imagem dele é muito vívida para mim, mas eu sou ótima em criar lembranças de coisas que nem aconteceram comigo. É um mistério se esse texto existe mesmo. Muitas vezes tenho dúvidas se li ou se imaginei.
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Nunca fui boa com plantas. Acreditava que tinha mão ruim, ao contrário do meu pai que fazia tudo brotar. Às vezes, eu fazia dele um pronto-socorro e deixava minhas plantas sob seus cuidados até que elas ficassem bonitas de novo.
Apesar disso, dois livros de plantas estão entre os mais importantes da minha infância: O Menino do Dedo Verde, que a Tia Neuza lia para mim, e O Jardim Secreto, um presente da minha mãe. Conheço de cor as duas histórias.
No primeiro, um menino faz qualquer planta criar vida só de tocar. No segundo, duas crianças encontram um jardim abandonado e, ao cuidarem dele, cuidam de si mesmas. O jardim floresce e elas também.
Em 2019, resolvi ter algumas plantas em casa. Poucas, para experimentar. Afinal, eu tinha mão ruim com plantas, lembram?
Chegou a pandemia e, na vontade inconsciente de trazer um pouco mais de vida para o apartamento em que moramos, fui trazendo uma e outra e outra… Hoje, minha sala parece uma mini selva amazônica. Quem me dera. Exuberante, caótica, um tanto desordenada. Mas muito cheia de verde.
Eu aprendi a cuidar delas. Mais que isso: aprendi a conhecê-las. Sei quando estão caidinhas. Às vezes, sei que precisam de água antes de murcharem, sem colocar a mão na terra. Só de olhar, sei que estão com sede.
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Em 2021, comecei uma pesquisa poética com o Guariba, um córrego que corre submerso na Vila Mariana.
Fiz muitas vezes o percurso do córrego, que passa canalizado sob as ruas, e comecei a suspeitar que as árvores ao longo dele eram mais exuberantes que em outros lugares. Quis saber que árvores eram aquelas e fui pesquisar sobre suas espécies. Aprendi sobre sua aparência, suas flores, seus frutos, seus ciclos. Descobri que algumas são nativas, mas muitas foram trazidas para cá de outros lugares. Sou muito curiosa, mergulhei no assunto.
Um tempo depois, percebi que eu andava diferente pela cidade, mesmo de carro. Ficava de olho na época em que a quaresmeira florescia. Me deliciava observando a generosa paleta de cores dos ipês. Me divertia lembrando que a flor que parece um sorvetinho era da sibipiruna. Cumprimentava toda semana a grande árvore sábia no caminho da minha corrida.
E me dei conta de que eu me sentia menos só na cidade: eu andava na companhia de velhas conhecidas, as árvores. Elas estavam ali, marcando o tempo, emprestando cor para a cidade cinza, respirando comigo.
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Mesmo quando eu nem percebia, as plantas sempre estiveram comigo: nos livros da infância, no texto que talvez nem exista, na pesquisa do Guariba, na sala cheia de verde.
O Menino do Dedo Verde e O Jardim Secreto falam, cada um do seu jeito, da vida que brota quando se cuida de um jardim. Talvez por isso eu entenda a arteterapia como esse gesto paciente de cultivar nosso espaço interior.
A gente prepara o solo, rega de tempos em tempos e cria espaço para o sol entrar. Sem pressa, porque algumas coisas demoram para nascer.
Às vezes, é preciso arrancar algumas ervas daninhas. De vez em quando, podar o que excede. Muitas vezes, a gente só fica ali, fazendo o trabalho cotidiano de cuidar do que ainda não apareceu.
Adoro a palavra cultivar: fazer o que precisa ser feito com cuidado e esperar. Oferecer atenção continuamente.
E então, um dia, algo brota. Pode ser uma imagem, uma compreensão nova, uma forma diferente de responder a antigas demandas.
À primeira vista, parece um lampejo surgido do nada. Mas ele só aparece porque a gente esteve ali, com paciência, criando condições para que a vida pudesse acontecer.
E eu, que achava que tinha mãos ruins para plantas, aprendi que era possível ser de outro jeito. Hoje sei preparar a terra, regar e dar um passo para trás para não fazer sombra.
E isso vale para plantas, filhos e jardins.
Até a próxima,
Renata




como eu amo te ler. aprendo tanto. sobre arte. sobre vida. seu olhar me expande.